terça-feira, 15 de março de 2022

o silêncio é manso

e reviras os olhos ao quotidiano

a vida não tem qualquer musicalidade

entende

a vida não está escondida atrás da porta

não vai abraçar-te em êxtase quando chegas a casa


fuma um cigarro

lê as notícias da guerra, preenche o irs,

lê os poemas antigos

em voz alta, com vergonha


como são cíclicos os desejos...

tudo o que conheci está morto

e já não falamos na terceira pessoa


o algoritmo da felicidade

é afinal encontrar uma sombra



e desistir.






domingo, 8 de agosto de 2021

 dizer-te amor


dizer-te, amor, o teu corpo desenha nuvens nas paredes do quarto

e parece que o mundo se abriu à melancolia

vamos fingir, amor, que as minhas pernas 

são um acidente de avião

e as tuas mãos, amor, um protocolo de segurança


dizer-te amor, o silêncio rompeu-me as veias

mas as palavras, amor, amor, engoliram-me o coração 





quinta-feira, 26 de novembro de 2020





um amor eterno ou um gato sentado à porta de casa
fotografias do dia seguinte e fruta por morder

sei que será exatamente assim.

o teu sorriso
e o alinhamento perfeito dos astros

a ternura e o cansaço nas concavidade das mãos

quem sabe... a felicidade aleatória de nunca esquecer o teu nome.

ou um só pássaro que se curva no caos

a tua saliva
na minha saliva 
para enganar a morte


terça-feira, 24 de setembro de 2019

snomed

põe a mesa
põe a mão na mesa
e a mesa
põe a doença
na mesa
a doença das mãos
a mesa
a doença
o ciúme na mesa
põe tudo na mesa
joga o trunfo
ou põe os braços
como o arco do triunfo
põe os lábios na mesa
coça o cotovelo
não esmoreças
sorri
põe a mesa
dobra os guardanapos
como se fossem os patos
da infância
não sejas infame
não traduzas os silêncios
põe a mesa
as palavras não querem dizer nada
e estar a chover
significa só que tens que trazer
o estendal para dentro
e que não há qualquer poesia
nos nossos dias

o amor tem sempre convidados para o jantar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

repara como o mundo nos vai ensaiando para a última dança
a inclinação perfeita da retina sobre a curva dos lábios

quero acreditar que é para sempre, digo-te

que os teus pés, que os meus pés percorrão em círculo os dias
ainda que a música cesse

quero acreditar que não te morrerei, que não me morrerás

que a saliva será sempre este fruto por morder
que a tua mão, que as nossas mãos vão segurar
todas as horas.



segunda-feira, 29 de julho de 2019

diz-me

o teu corpo é um pássaro pousado no meu joelho
o teu corpo é a interminável alegria de uma manhã que nos cega

chega, abre a porta, diz-me

o balançar das folhas, a brisa da segunda-feira de manhã
a incerteza do sol e o teu corpo como a eterna consequência
do amor

ou estende a mão

acende-me um cigarro, pousa a tua cabeça nas minhas coxas
e deixa-me ser mais um dia.



primeiro beijo

lembro-me desse dia como se fosse o único

o teu sorriso mais largo, o teu suspiro mais fundo
e as mãos junto ao peito para não deixar sair o coração


não aprendi nenhuma palavra nova que não venha numa receita médica  não conheço nada que não se tome de oito em oito, de doze em doze horas ...