sábado, 22 de outubro de 2022

cicuta

afinal é assim que começam todos os desastres.

uma luz que se acende em toda a extensão do dorso

e as mãos infinitas na interrupção dos espaços 

sabes das saliências dos músculos, da obliquidade dos astros

e os teus olhos, francamente abertos 

e a tua pele, que me veste e sara

faz-me esquecer o meu nome e as minhas falhas. 





terça-feira, 15 de março de 2022

o silêncio é manso

e reviras os olhos ao quotidiano

a vida não tem qualquer musicalidade

entende

a vida não está escondida atrás da porta

não vai abraçar-te em êxtase quando chegas a casa


fuma um cigarro

lê as notícias da guerra, preenche o irs,

lê os poemas antigos

em voz alta, com vergonha


como são cíclicos os desejos...

tudo o que conheci está morto

e já não falamos na terceira pessoa


o algoritmo da felicidade

é afinal encontrar uma sombra



e desistir.






domingo, 8 de agosto de 2021

 dizer-te amor


dizer-te, amor, o teu corpo desenha nuvens nas paredes do quarto

e parece que o mundo se abriu à melancolia

vamos fingir, amor, que as minhas pernas 

são um acidente de avião

e as tuas mãos, amor, um protocolo de segurança


dizer-te amor, o silêncio rompeu-me as veias

mas as palavras, amor, amor, engoliram-me o coração 





quinta-feira, 26 de novembro de 2020





um amor eterno ou um gato sentado à porta de casa
fotografias do dia seguinte e fruta por morder

sei que será exatamente assim.

o teu sorriso
e o alinhamento perfeito dos astros

a ternura e o cansaço nas concavidade das mãos

quem sabe... a felicidade aleatória de nunca esquecer o teu nome.

ou um só pássaro que se curva no caos

a tua saliva
na minha saliva 
para enganar a morte


terça-feira, 24 de setembro de 2019

snomed

põe a mesa
põe a mão na mesa
e a mesa
põe a doença
na mesa
a doença das mãos
a mesa
a doença
o ciúme na mesa
põe tudo na mesa
joga o trunfo
ou põe os braços
como o arco do triunfo
põe os lábios na mesa
coça o cotovelo
não esmoreças
sorri
põe a mesa
dobra os guardanapos
como se fossem os patos
da infância
não sejas infame
não traduzas os silêncios
põe a mesa
as palavras não querem dizer nada
e estar a chover
significa só que tens que trazer
o estendal para dentro
e que não há qualquer poesia
nos nossos dias

o amor tem sempre convidados para o jantar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

repara como o mundo nos vai ensaiando para a última dança
a inclinação perfeita da retina sobre a curva dos lábios

quero acreditar que é para sempre, digo-te

que os teus pés, que os meus pés percorrão em círculo os dias
ainda que a música cesse

quero acreditar que não te morrerei, que não me morrerás

que a saliva será sempre este fruto por morder
que a tua mão, que as nossas mãos vão segurar
todas as horas.



segunda-feira, 29 de julho de 2019

diz-me

o teu corpo é um pássaro pousado no meu joelho
o teu corpo é a interminável alegria de uma manhã que nos cega

chega, abre a porta, diz-me

o balançar das folhas, a brisa da segunda-feira de manhã
a incerteza do sol e o teu corpo como a eterna consequência
do amor

ou estende a mão

acende-me um cigarro, pousa a tua cabeça nas minhas coxas
e deixa-me ser mais um dia.



não aprendi nenhuma palavra nova que não venha numa receita médica  não conheço nada que não se tome de oito em oito, de doze em doze horas ...